Speaking With… Professora Yolanda

Ninguém está preparado para ser pai ou ser mãe. Por mais livros que se leiam, por mais que tenhamos aprendido com a nossa própria educação ou com exemplos próximos que tenhamos, quando o nosso primeiro filho nasce tudo é uma descoberta. E nenhum pai que se preze dispensa os conselhos de pessoas que têm já essa experiência.

Na categoria Speaking With, o meu objectivo é simples. Aprender. Aprender com pais, com mães, com profissionais de várias áreas que trabalham directamente com crianças, todos os dias.

Porque por mais que digamos aos nossos filhos que “o pai é que sabe” (nem sequer sou muito adepto desta filosofia), ser pai é também ser humilde e saber que ninguém nasce ensinado. Só não admitam aos vossos filhos que estão a improvisar a maior parte do tempo, e tudo correrá bem…

Estive à conversa com a professora de 1º ciclo Yolanda Borges da Cunha, já reformada e que nos seus mais de 30 anos de carreira deu aulas em Angola, Macau e vários locais muito distintos de Portugal. Conheceu várias gerações de alunos (e de pais), passou por várias reformas do ensino e chegou a ser Directora do Conselho Directivo de uma escola.

Obrigado Yolanda por aceitar falar com este pai que é também ele um aluno a aprender esta nova tarefa de educar uma criança.

professora

O que considera ser o maior desafio para um professor ou professora, actualmente?

Honestamente, penso que é a falta de respeito que os alunos têm pelos professores. A culpa não é nunca das crianças, atenção. Poderá vir da educação que recebem em casa ou conversas inapropriadas que ouvem em relação aos professores. Os comportamentos das crianças são aprendidos.

O que sente que mudou mais na educação que é dada na sala de aula, nos últimos anos?

Reformei-me já há 10 anos, mas durante os últimos anos em que leccionei senti que houve uma grande desmotivação por parte dos professores. Há um paralelo com a tal falta de respeito de que falei na pergunta anterior, mas também com a falta de mérito que nos é dado enquanto profissionais. Houve muitas mudanças ao nível da estrutura escolar e da condição do professor, e penso que tudo isso resultou nesta tal desmotivação.

Quais as maiores diferenças entre o ensino em Portugal, Angola e Macau, os três países em que leccionou?

Bem, eu dei aulas em Angola numa altura em que não havia ainda independência, pelo que havia uma forte influência do ensino português. Era diferente a nível de métodos, mas em relação às crianças elas eram extremamente educadas e respeitosas para com o professor, algo que já não se via com tanta força em Portugal. Havia uma esperança no professor, na educação. Era incutido às crianças que um dos pontos mais importantes para o seu futuro estava na escola, e os professores eram muito respeitados por toda a sociedade.

Em Macau, os Chineses têm a filosofia do trabalho. Têm de trabalhar, aprender e respeitar a hierarquia. A postura da criança perante o professor era por isso também diferente de em Portugal. Este respeito não impedia, no entanto, que fossem criados laços de amizade e afecto com o professor. Na verdade, ainda hoje tenho contacto com os meus alunos de Macau.

Em portugal há mais liberdade para o professor, sem dúvida, mas feitas as contas penso que essa diferença era um pouco insignificante.

Quais as maiores diferenças na relação dos alunos com os professores, dos professores com os pais, etc?

A Comunicação Social tem um peso muito grande na sociedade e influencia a atitude da população em geral, em relação aos professores. Como em todas as áreas, há bons profissionais e maus profissionais, há escolas melhores e escolas piores, não vale a pena negar. A relação entre as várias entidades que compõem a estrutura escola são influenciadas por vários factores, obviamente.

Na minha experiência, sinto que os pais antigamente acompanhavam mais a vida escolar dos seus filhos. Talvez até porque as mães não trabalhavam fora e por isso tinham mais tempo livre. Hoje a vida é muito agitada e eles têm menos tempo. Ao longo de toda a minha carreira, até há 10 anos atrás quando me reformei, eu tive sempre a presença da maioria dos pais nas minhas reuniões e sempre que era preciso falar de algum problema a nível escolar ou comportamental. Isto parte muito do professor, também, pela forma como nós conduzimos essa relação.

Na minha carreira nunca tive razão de queixa. Cheguei até a ter um “caderno de ponto” para os pais, para assinalar as suas presenças nas reuniões, o que hoje em dia seria provavelmente impensável. A verdade é que é uma das boas memórias que tenho da minha profissão.

Isto é tudo muito geral, claro. Eu dava aulas com música, eramos “amigos”. Em primeiro lugar era a professora e quem mandava era eu, mas havia afecto. Hoje acredito que os meus colegas estejam a passar momentos muito difíceis. Reformei-me quando vi que estavam a exigir coisas de nós que prejudicavam a nossa prática e que não tinham nenhum efeito positivo na educação das crianças, que é o grande objectivo de um professor. Muitas horas de reuniões desnecessárias, muitos papéis e burocracia, pouco tempo para preparar as aulas. Penso que também isto tem um efeito negativo na relação entre o professor e o aluno, e também na relação entre o professor e o encarregado de educação.

Ao nível dos desafios que são lançados dentro de uma sala de aula, o que considera que funciona melhor para a educação de uma criança?

Falando do ensino do 1º ciclo, que são miúdos que ainda têm muita necessidade do apoio maternal, é preciso que o professor seja maternal, firme e exigente. Digo exigente porque hoje em dia vê-se muita condescendência com as crianças, especialmente quando elas fazem algo mal. Vejo muito a atitude do “coitadinho, ainda é pequeno não sabe”. Mas acredito que é muito importante para uma criança saber quando errou. Obviamente que fazer algo mal é normal, mas se esse comportamento se repete temos de ser exigentes e chamar a atenção.

Agora, é claro que há formas e formas de repreender. O miúdo não deve sentir que é um castigo, não deve sentir-se gozado nunca. Mas temos de os ensinar a melhorar os comportamentos. Não podemos tratá-los eternamente com a atitude “coitadinho, não sabe fazer melhor”. Temos de lhes dar a responsabilidade para aprender com os seus erros. Nunca devemos bater na criança, sou totalmente contra essa forma de repreensão. Nunca devemos insultá-los ou gozá-los. Devemos explicar o que fez de errado e, quando necessário (por exemplo quando o erro já havia sido explicado anteriormente e a criança continua a cometê-lo), devemos dar um pequeno castigo. Por exemplo, nunca tirei um recreio a uma criança. Mas por vezes dava o castigo de ficarem 5 minutos extra na sala. Era o suficiente para a criança perceber que tinha agido mal, e pensar sobre o seu comportamento para não o repetir.

Hoje em dia há muito medo de reprender as crianças, mas às vezes é necessário. É até bom para a sua formação enquanto pessoas. Dar colo e afecto, claro, mas também repreender quando é necessário. Hoje em dia tenho antigos alunos que ainda me agradecem os castigos que levaram, porque sentem que contribuiu para que sejam melhores pessoas.

Hoje em dia, as crianças são de certa forma sobrecarregadas com inúmeras actividades extra-curriculares. Considera que isto contribui de uma forma positiva para a formação das crianças, ou que também pode ter algumas implicações negativas?

Tem, claro que tem. Sou contra um excesso de actividades extra-curriculares. Toda a criança tem de ter duas ou três actividades, muito bem doseadas ao longo da semana. É evidente que lhes faz falta, principalmente as actividades mais lúdicas. Mas a criança tem de ter tempo em casa para estudar e até para não fazer nada, para brincar e dar asas à sua imaginação. E é a responsabilidade do adulto contabilizar o tempo da criança e dar-lhe também tempo para ser criança. Há também a responsabilidade do professor, que às vezes dá demasiados trabalhos de casa e a criança depois não tem tempo para fazer. E às vezes nem o professor tem tempo de os ver!

Que actividades considera ser imprescindíveis na educação de uma criança?

Tem muito a ver com os gostos e apetências da criança. Mas por exemplo, uma actividade que envolva água ou música é muito positivo, porque acalma e relaxa a criança. Mas, por exemplo, se a criança for mais activa, um desporto que o permita libertar toda a energia e força fará talvez mais sentido.

Se pudesse dar um conselho a um casal que acaba de ser pai pela primeira vez, qual seria?

“Tire tempo” para acompanhar o seu filho, em tudo. Desde o berçário ou infantário, todas as semanas, saber qual o comportamento da criança, mais tarde saber as actividades que a escola propõe, acompanhar essas actividades, saber se ele conseguiu fazer ou não, se gostou, etc. Em casa, tentar compensar aquilo que o menino faz “menos bem” ou puxar por ele para ser independente, para dizer o que pensa mas saber como dizer.

Acompanhar em tudo, é o meu maior conselho.

5 Comment

  1. Mariana Bessa says: Responder

    Sou mae á cerca de um ano e tenho de te dar os parabéns Diogo por este blog, mas acima de tudo por esta entrevista! Excelente! Concordo plenamente com tudo o que falou! Ganhou mais uma fã, sem dúvida!
    Sucesso para o blog, vou continuar a seguir 😉

  2. Moreira Tania says: Responder

    Obrigado pelo blog esta muito bom acabei de ler a entrevista com a professora e concordo plenamente eu tenho 3 raparigas e como é difícil, sou eu que aprendo mais 😉 as mais pequenas estiveram durante muito tempo comigo eu sou da filosofia que: ” vou dar tudo de mim agora porque amanhã posso não estar ca ” então não as largo como elas a mim ! Filhos são tesouros ! Muitas felicidades para vocês os 3 beijinhos grandes de uma fã

  3. scrive:Il fenomeno nascondino parte da un concetto che, per lo meno dove lavoro io, viene chiamato SOTTOESPOSIZIONE.Nel senso che prevale un antica logica che asserisce in pratica questo concetto: CHI SI SOVRAESPONE PRIMA O POI SI BRUCIA.Pensa te. Anche se devo far la guerra, e lo so perfettamente, trovo sempre degli strateghi incredibili dall’altra parte del campo di battaglia.

  4. Thanks for this post! I am also so very grateful for your wife, your daughter, and Mary. Your wife loves you, my grandchildren, and God so beautifully – a mom couldn’t ask for more. Your daughter, our little MG is a wonderful delight to me. She lights up my days just by hearing her sweet voice. And I am so thankful for Mary and anyone who teaches you how to grow in service to others. We all need that in our lives! Have a great day!

  5. Me dull. You smart. That’s just what I needed.

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